NORMAS ANTECEDENTES NO FUTEBOL: APROXIMAÇÕES ENTRE A SISTEMÁTICA DO TRABALHO DO TÉCNICO E A ERGOLOGIA EM UMA REVISÃO DE LITERATURA
Ergologia; Normas antecedentes; Técnico de futebol; Periodização tática; Modelo de jogo.
A crescente complexidade do futebol contemporâneo tem exigido novos olhares sobre o trabalho do técnico, sobretudo no que se refere à construção do modelo de jogo. A atividade do treinador, tradicionalmente analisada a partir de abordagens prescritivas, tem sido concebida majoritariamente por meio de referenciais vinculados à lógica do rendimento e da performance. No entanto, essa concepção tende a desconsiderar as dimensões histórico-normativas que condicionam e atravessam o agir do técnico. Inserido nesse contexto, este estudo parte da necessidade de ampliar o escopo analítico, tomando o trabalho do técnico de futebol a partir do ponto de vista da atividade, considerando a relação entre normas antecedentes, periodização tática e construção do modelo de jogo. A proposta fundamenta-se na abordagem ergológica, que entende o trabalho como atividade situada e histórica, resultante de arbitragens entre o uso de si por si e o uso de si por outros. A escolha pelo conceito de normas antecedentes decorre da constatação de sua escassa aplicação no campo dos estudos esportivos, embora seu potencial explicativo seja relevante para a compreensão das renormalizações que os técnicos operam no cotidiano de suas práticas. Justifica-se, portanto, a realização de uma investigação que dialogue com os referenciais da ergologia, a fim de interpretar os processos de tomada de decisão, planejamento e organização do trabalho do técnico de futebol como práticas mediadas por heranças normativas, ao mesmo tempo que continuamente recriadas no presente da atividade. A carência de estudos que articulem a ergologia ao futebol reforça a pertinência teórica e metodológica da presente pesquisa. O objetivo geral consistiu em investigar, sob perspectiva histórica, os aspectos das normas antecedentes que incidem sobre o trabalho dos técnicos de futebol, em articulação com os modelos de periodização esportiva adotados na construção do modelo de jogo. A metodologia adotada foi a revisão de escopo, norteada pelo protocolo PRISMA-ScR, com recorte temporal compreendido entre 2016 e 2024. Os critérios de seleção incluíram artigos científicos, dissertações, teses, relatórios técnicos e capítulos de livros que abordassem diretamente a atividade do treinador, os métodos de periodização e aspectos relacionados à organização do jogo. A análise dos dados foi conduzida por meio da técnica de síntese temática. Os resultados evidenciaram a predominância de estudos ancorados em perspectivas técnico-funcionalistas, com baixa incidência de abordagens que considerem o técnico como sujeito produtor de saberes em situação de trabalho. As publicações concentram-se em aspectos metodológicos, físicos e táticos, negligenciando o debate sobre as normas antecedentes como dispositivos reguladores da atividade. A ausência de estudos que mobilizem os conceitos ergológicos revela uma lacuna teórica significativa e abre possibilidades para o desenvolvimento de pesquisas que valorizem a dimensão subjetiva, normativa e histórica da atuação técnica do treinador de futebol. Conclui-se que a articulação entre ergologia e futebol oferece subsídios analíticos relevantes para repensar a formação, a gestão e a prática dos treinadores. A abordagem adotada neste estudo permite compreender o modelo de jogo como construção situada, marcada por renormalizações contínuas diante de prescrições históricas e exigências contextuais. A investigação contribui para a ampliação das fronteiras do conhecimento sobre o trabalho no futebol e aponta caminhos para o aprofundamento teórico e metodológico em pesquisas futuras sobre a atuação dos treinadores esportivos.