A SOLIDÃO (DES)POVOADA NOS ROMANCES NEM SINAL DE ASAS E JOÃO MARIA MATILDE, DE MARCELA DANTÉS
Solidão, loucura, agenciamentos, rizomas, desejo afirmativo, desejo pivotante, afectos, perceptos, máquinas desejantes, recognição, linhas de fuga, espaço liso, espaço estriado, território, territorialização, desterritorialização, reterritorialização, arte, filosofia, literatura, figuras estéticas.
O filósofo Gilles Deleuze, em sua obra Diálogos, apresenta rapidamente o conceito de “solidão povoada”, quando ele se refere ao seu encontro com Félix Guattari. Para Deleuze, a solidão é afirmativa e, sobretudo, povoada de encontros. Um encontro talvez seja a mesma coisa que um devir, e talvez seja do fundo da solidão que se possa fazer qualquer encontro. É a partir desse conceito de “solidão povoada” que se constrói o tema desta pesquisa. Pensar a solidão e as questões que atravessam essa solidão, na construção das personagens da escritora mineira e belorizontina Marcela Dantés, em seus livros – Nem Sinal de Asas (2020) e João Maria Matilde (2022). Aliado ao conceito de “solidão povoada”, este projeto propõe a ideia de uma “solidão despovoada”, considerando que uma das personagens traz uma vida de poucos encontros, traduzindo uma situação mais pivotante, menos desterritorializante. Para isso, outros conceitos deleuzianos serão importantes na construção desta análise, como os processos de territorialização, desterrritorialização e reterritorialização a que as personagens estão sujeitas. As figuras estéticas de Dantés, cujas solidões diferem em potência, criam agenciamentos e se movimentam ante as forças que as afetam: Matilde está para a viagem, para a mudança; já Anja Santiago gira sobre uma espécie de centro que a consome praticamente no mesmo lugar. O comportamento delas demonstra que os territórios tanto podem se expandir, criando rizomas, como podem se pivotar, criando raízes profundas, girando numa espécie de mesmidade. Assim, para Anja, de Nem Sinal de Asas, a solidão apresenta-se como desejo pivotante. Ela apresenta um devir-triste, uma paixão e uma dedicação à morte, um gosto funesto pela ferida, uma cultura de recognição que não permite o esquecimento como forma de saúde. Já para Matilde, a solidão é afirmativa e povoada de encontros. Essas figuras estéticas, que são agenciamentos de sensações, lidam com as máquinas desejantes que as afectam, promovendo um movimento de desterritorialização e reterritorialização de forma distinta.