A autoidentificação sob a ótica discursiva: estratégias argumentativas de acusados de frade no uso das cotas raciais na UFMG
Análise do discurso. Argumentação. Lei de cotas.
Desde o início dos anos 2000, o sistema universitário brasileiro vem passando por mudanças em seus métodos de ingresso. Há pouco mais de uma década, foi promulgada a Lei nº 12.711, de 28 de agosto de 2012, recentemente atualizada pela Lei nº 14.723, de 13 de novembro de 2023, mais conhecida como Lei de Cotas (Brasil, 2012, 2023), que padronizou a reserva de vagas na rede federal de educação superior. Em nosso trabalho, buscaremos investigar, a partir de um olhar que conecta retórica, argumentação, análise do discurso e formação social brasileira, de que maneira estudantes que entraram na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pelas cotas raciais, destinadas a pessoas pretas e pardas, e que foram posteriormente denunciadas por fraude, defenderam-se das acusações no primeiro Processo de Sindicância Investigatória aberto pela instituição, em 2017. Nosso objetivo é mapear os argumentos que permeiam a discursividade desses indivíduos e identificar padrões argumentativos. Partimos da hipótese de que, dadas as condições de produção dos discursos, as justificativas são marcadas pela presença de elementos retóricos (especialmente etóticos e patêmicos) e de imaginários de pertencimento (por questões identitárias e de ascendência) à população negra. Para confirmar ou não esta hipótese, utilizaremos a Teoria Semiolinguística do Discurso, de Charaudeau (2005, 2012, 2017), e a dimensão argumentativa de Amossy (2007, 2016, 2018). Já em relação à Lei de Cotas e sua aplicação na UFMG, as principais contribuições são as de Gomes (2003, 2012, 2017) e as de Jesus (2018, 2021).