O amor mais incômodo: a relação mãe-filha no primeiro romance de Elena Ferrante
Literatura contemporânea; Elena Ferrante; Maternidade; Relação mãe-filha
Em Um amor incômodo, Elena Ferrante explora a complexa relação entre Delia e sua mãe, Amalia, marcada por amor, ódio, identificação e estranhamento. A morte da mãe, anunciada nas primeiras linhas da obra, conduz Delia a um confronto com suas próprias memórias e com um vínculo que não se dissolve, mas se desdobra. Ao longo da narrativa, percebemos a dificuldade que Delia enfrenta para se desligar da mãe. Freud já apontava que, para a menina, esse processo não é simples, porém, sempre esbarrando na lógica fálica do Édipo, acabava por tratar o desdobramento dessa relação como um problema. Diante disso, ele evocou inúmeras hipóteses para tentar “solucioná-lo”, ao passo que reconhecia, também, a insuficiência delas para explicar a hostilidade que se mantém nesse laço (nessa malha). Interessa-nos pensar que tal desdobramento e o vínculo ambíguo entre mãe e filha revela algo do enigma do feminino. Afinal, a relação não é entre uma pessoa que é mãe e outra que é filha, mas entre duas posições do sujeito mulher. A obra de Ferrante nos coloca diante desse enigma, mostrando que a relação realmente não se dissolve, mas ecoa e potencializa o feminino.