Encruzilhadas da diáspora: memória, subjetiva e escritas de si em Mahommah Gardo Baquaqua
Baquaqua. Identidade. Narrativas de Escravizados. Memória.
Este trabalho propõe uma leitura da autobiografia de Mahommah Gardo Baquaqua a partir das categorias teóricas da memória, da escrita de si e da subjetividade, com o objetivo de refletir sobre os modos de enunciação do sujeito escravizado em sua própria narrativa. Publicada originalmente em 1854 e organizada na edição de 2001 por Robin Law e Paul Lovejoy, a obra de Baquaqua é a única narrativa autobiográfica conhecida de alguém que viveu a experiência do cativeiro tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, oferecendo um testemunho singular da diáspora africana. A análise considera a escrita autobiográfica como uma prática discursiva de inscrição da experiência no texto, conforme os estudos de Lejeune (2008) e Arfuch (2010), observando como Baquaqua articula memória individual e coletiva para reconstruir sua trajetória como homem livre, escravizado e posteriormente livre. A obra é compreendida como parte do corpus das Slave Narratives, gênero literário e político que denuncia os horrores da escravidão e afirma a agência dos sujeitos negros na construção de suas histórias. O estudo evidencia que Baquaqua recorre a estratégias de autorrepresentação que tensionam noções de identidade estável, revelando-se como sujeito múltiplo, híbrido e em constante negociação, aspectos que dialogam com os conceitos de identidade performática (Bhabha, 1998) e máscaras sociais (Fanon, 2008). Ao rememorar suas origens africanas e os traumas do cativeiro, o autor inscreve sua subjetividade num espaço ambíguo entre a dor, a resistência e a reinvenção de si, mobilizando a escrita como instrumento de memória e afirmação. Assim, a autobiografia de Baquaqua não apenas contribui para a preservação da história dos africanos escravizados, mas também fornece elementos para repensar a literatura de testemunho e o papel da memória na constituição das identidades negras na diáspora.