O ACONTECIMENTO JORNALÍSTICO DO
ASSASSINATO DE ÂNGELA DINIZ: gênero, discurso e violência
Acontecimento Discursivo; Acontecimento Jornalístico; Assassinato de Mulheres; Mídia
Esta pesquisa analisa o discurso da imprensa do final da década de 1970 e início da década de 1980 sobre o assassinato de Ângela Diniz pelo seu então namorado Doca Street. A análise está ancorada nos pressupostos teóricos e metodológicos da Análise do Discurso (AD) materialista de Michel Pêcheux e de conceitos de pesquisadoras brasileiras da AD como Eni Orlandi e Silmara Dela-Silva. Em 1976, a socialite mineira Ângela Diniz foi assassinada pelo então namorado, o empresário e playboy Raul Fernando do Amaral Street, mais conhecido como Doca Street. O que se viu, a partir de então, especialmente na mídia, foi o discurso que culpabiliza a vítima pelo próprio assassinato e atenua a responsabilidade do assassino. Esse discurso foi fundamental para a defesa de Doca Street, no primeiro julgamento, em 1979, quando foi condenado a uma pena de um ano e seis meses pelo crime. A indignação com o resultado do julgamento levou o movimento feminista a insurgir contra a violência de gênero com o movimento “Quem ama não mata”, com a ocupação de espaços discursivos na própria mídia. Assim, esta pesquisa tem como objetivo analisar como o assassinato de mulheres se constitui como acontecimento jornalístico, a partir do caso Ângela Diniz. O acontecimento jornalístico se refere a um fato que gera notícia devido à sua importância. Essa importância é avaliada por jornalistas conforme critérios estabelecidos pelos manuais de Redação dos veículos de Comunicação, que vão definir o que é ou não de interesse público, o que merece ou não estar na mídia (Dela-Silva, 2008). Para se chegar a esse objetivo, foram escolhidas como base para a constituição do corpus de análises a primeira entrevista com Doca Street, após o assassinato, na revista Manchete, de janeiro de 1977, e as reportagens das revistas Manchete e Veja com a cobertura do primeiro e do segundo julgamento de Doca Street. A escolha da Manchete se deve ao fato de ter sido o primeiro veículo de Comunicação a entrevistar Doca Street, gerando grande repercussão, tendo inclusive influenciado o discurso da defesa do assassino no primeiro julgamento. A Veja foi escolhida por ser a revista de maior circulação, ao lado da Manchete, naquelas décadas. Conforme Kobayashi (2017), uma revista chegava a ter a tiragem de 600 mil exemplares semanais. As análises mostram como a mídia atuou para propagar e fortalecer discursos que ainda hoje naturalizam, perpetuam e promovem a violência contra a mulher.