O DIGITAL PELAS LENTES DO MATERIAL: um gesto de leitura das disputas de sentido em torno da Inteligência Artificial
Inteligência Artificial Geral (IAG); Análise do Discurso; Materialismo; Big Techs; Colonialidade Digital.
Este projeto de pesquisa propõe uma análise crítica dos discursos que constituem a corrida pela Inteligência Artificial Geral (IAG). Fundamentada na Análise do Discurso (AD) materialista (Pêcheux; Orlandi), a investigação mobiliza o conceito de gesto de leitura para desnaturalizar a evidência técnica da IA, compreendendo-a como um objeto histórico e ideológico. O percurso genealógico toma como ponto de partida o artigo Computing Machinery and Intelligence (1950), de Alan Turing, demonstrando como o Jogo da Imitação operou um deslocamento epistemológico fundador, situando a inteligência no campo da simulação discursiva. Na contemporaneidade, o foco analítico recai sobre as declarações dos pilares organizacionais – Missão, Visão e Valores – e documentos técnicos das principais corporações do setor: OpenAI, Google DeepMind e Meta AI. A hipótese central é que a discursividade dessas corporações conduz a uma naturalização do inevitável, mascarando as relações de força que determinam o controle da infraestrutura e deslocando a responsabilização pelos efeitos materiais presentes para um futuro especulativo. Em termos de resultados esperados, a pesquisa busca demonstrar, no plano teórico, a operacionalidade da AD na leitura de materialidades algorítmicas; e, no plano empírico, evidenciar como os discursos de benefício universal operam o apagamento de contradições estruturais, como a concentração de capital, a dependência tecnológica e a precarização do trabalho – em especial no Sul Global –, reforçando padrões de colonialidade digital e hegemonia cultural. Almeja-se, por fim, que a explicitação dessas dinâmicas contribua para o debate sobre regulação e soberania digital no Brasil.